‘Fui contaminada de forma intencional’: vítima conta como descobriu que foi infectada com HIV pelo namorado em RO

O relato da mulher que denunciou namorado por transmissão intencional de HIV em RO
“Fui contaminada de forma intencional”: A frase marcou o momento em que Marta* entendeu que a infecção por HIV não havia sido um acaso, mas resultado da conduta do então namorado, o dentista Jean José Dunga, de 41 anos, em Porto Velho.
Em uma entrevista para o g1, a vítima contou que soube que o namorado tinha HIV por meio de terceiros, e não pelo próprio suspeito. No dia 19 de maio de 2026, o exame sorológico dela deu positivo para HIV. Uma semana depois, no dia 26 de maio, exames complementares confirmaram a infecção.
Antes disso, ela enfrentava uma sequência de sintomas que não melhoravam. Ela relata ter sofrido com infecções recorrentes, dores no corpo, vermelhidão, coceira, dor de cabeça e cansaço.
Segundo Marta, os problemas de saúde começaram em menos de um mês após o início do relacionamento. Como os sintomas persistiam mesmo após o uso de medicamentos, ela decidiu fazer exames para investigar a causa do quadro. Com a piora do estado de saúde, descobriu que estava infectada pelo HIV.
“Terminei com o Jean no dia 30 de abril e depois dessa data nunca mais voltamos a nos falar. Ele nunca me falou que tinha HIV quando namorávamos”, relata.
🔎O HIV é o Vírus da Imunodeficiência Humana. Ele invade e enfraquece o sistema imunológico, que protege o corpo contra doenças. Caso não haja tratamento, ele pode causar a Aids (termo para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, em inglês).
*Para proteger a identidade da vítima, que teme o estigma social e a exposição de sua família, ela é identificada nesta reportagem pelo nome fictício de Marta. A identidade do acusado é real.
Jean José Dunga de Oliveira
Arquivo Pessoal/Vítima
A confirmação foi acompanhada de outra revelação: durante consulta com uma médica infectologista, a paciente foi informada de que o Ministério Público de Rondônia (MP-RO) já monitorava um dentista suspeito de infectar mulheres intencionalmente no estado.
A vítima contou que só descobriu a ligação entre o namorado e a investigação quando informou o nome dele durante o atendimento médico.
“A médica me deu essa notícia com muito respeito cuidado e muita ponderação, pois estava num estado emocional muito delicado. Já havia preparado minha família para que eu pudesse ter forças para entender que fui contaminada de forma intencional, ou seja, de forma criminosa, por uma pessoa que havia usufruído de toda intimidade da minha casa e família”, relembra.
Segundo Marta, a informação transformou o choque do diagnóstico em indignação. Ela afirma que, naquele momento, descobriu que não era a primeira mulher a denunciar o dentista.
A médica orientou a vítima a procurar o Núcleo de Atendimento a Vítimas (Navit) do Ministério Público. Lá, ela descobriu que era a quarta mulher a denunciá-lo. Jean foi preso em junho de 2026 e permanece detido em Porto Velho.
“Quando fui infectada pelo Jean, ele não adoeceu somente a mim, ele adoeceu uma família inteira. Há um luto, ele atingiu todas as pessoas que me amam e estão ao meu lado”, afirmou a vítima ao g1.
Outros casos
Segundo o MP-RO, a primeira denúncia foi feita no dia 4 de dezembro de 2025. A mulher relatou que sofreu violência sexual e depois descobriu estar contaminada com HIV. A segunda vítima foi ouvida seis dias depois, relatando o mesmo crime.
Em janeiro de 2026, a terceira pessoa foi encaminhada ao Navit por meio do Serviço de Atendimento Especializado (SAE), uma unidade localizada em Porto Velho que oferece testagem e tratamento para pessoas que vivem com HIV e Aids.
Os casos das três primeiras vítimas resultaram em um processo único. Jean foi denunciado à Justiça por lesão corporal gravíssima e perigo de contágio de doença grave. Em relação a duas das mulheres, ele também foi acusado de estupro.
De acordo com o MP-RO, a investigação sobre Jean já estava em andamento havia cerca de quatro meses quando Marta recebeu o diagnóstico.
No caso de Marta, Jean foi condenado a cinco anos de prisão em regime semiaberto e ao pagamento de R$ 50 mil em indenização à vítima.
Antes da condenação, a defesa de Jean prestou solidariedade às vítimas e afirmou ao g1 que o acusado realizava tratamento antirretroviral e acreditava não haver risco de transmissão sexual do HIV. Após a condenação, a reportagem voltou a procurar o advogado, que optou por não se pronunciar.
Ao denunciar o caso, Marta procurou o Navit em busca de acolhimento e apoio. Segundo ela, a decisão de procurar as autoridades também foi motivada pelo receio de que outras mulheres pudessem ser vítimas do mesmo homem.
Homem é condenado por transmitir HIV de propósito em RO
arte/g1
De acordo com o MP-RO, é possível que existam outras vítimas ainda não identificadas. Caso haja a confirmação do diagnóstico, as vítimas em Rondônia podem procurar o Navit:
WhatsApp (69) 99906-6411 ou
por ligação no (69) 98408-9931.
Qualquer pessoa que desconfie ter sido exposta ao vírus pode procurar as Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou as UPAs para realizar o teste rápido de forma gratuita e sigilosa. O município de Porto Velho também conta com o atendimento do SAE.

