11 anos após desastre de Mariana, pescadores temem voltar ao mar e indígenas deixam de pescar no ES
Foz do Rio Doce, em Regência, Espírito Santo, tenta se recuperar 11 anos depois da invasão de lama de rejeitos da Samarco
Fernando Madeira/Rede Gazeta
A água mudou, os peixes também mudaram e a vida de quem sempre dependeu do Rio Doce e do mar nunca mais foi a mesma desde o rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, que completou 11 anos nesta quinta-feira (5).
Uma data nada comemorativa para quem ainda convive com as consequências do maior desastre ambiental do país. Os rejeitos que atingiram a bacia do Rio Doce e chegaram ao litoral do Espírito Santo transformaram a relação de pescadores e comunidades indígenas com as águas.
📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp
Em Regência, distrito de Linhares, no Norte do estado, o presidente da Associação de Pescadores, Leônidas Carlos, passou 55 anos da vida no mar. Foi da pesca que tirou o sustento para criar os nove filhos. Hoje, sente saudade do trabalho que marcou sua história, mas não tem segurança para voltar à antiga rotina na pesca, nem comercializar os peixes da região.
Na aldeia Piraquê-Açu, na cidade vizinha de Aracruz, o cacique Kara’í Perú contou que está há mais de dez anos sem pescar no rio. Após os rejeitos passarem pelas águas, a comunidade também deixou de consumir os peixes da região e começou a comprar pescado de outros locais, “dos homens brancos”, como eles falam.
Para quem vive dessas águas, a retomada da pesca profissional, autorizada recentemente pelo governo federal em um trecho do litoral próximo à foz do Rio Doce, no Norte do Espírito Santo, não significa que a confiança também tenha voltado.
Prova disso é que mesmo 11 anos após o desastre, pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) ainda identifica alterações no ecossistema aquático ao longo da bacia do Rio Doce. O estudo encontrou peixes com anomalias, como deformações e tumores.
Além das preocupações ambientais, permanece uma questão sobre a qual ainda faltam respostas: os possíveis efeitos da exposição aos rejeitos e do consumo de pescado na saúde humana.
Uma relação interrompida com o rio
Para Kara’í Perú, a mudança na relação da comunidade indígena com o Piraquê-Açu vai muito além de deixar de pescar.
O rio sempre fez parte da alimentação, da cultura e da identidade dos indígenas. É um espaço de convivência, de transmissão de conhecimentos entre gerações e de conexão espiritual com a natureza.
O cacique contou ao g1 que, diante da desconfiança sobre a qualidade da água e dos peixes, as famílias precisaram mudar hábitos antigos. Hoje, compram pescado de outras regiões para consumir.
Cacique Kara’í Perú, da Aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz: comunidade sente efeitos das águas contaminadas até hoje
Ricardo Medeiros/Rede Gazeta
LEIA TAMBÉM:
Da oração à rede: tradição do pescado conecta rio, mar e tanques e movimenta a economia
Rio Doce é um ‘paciente crônico’ dez anos depois do desastre de Mariana
A decisão representa uma mudança profunda para uma comunidade que sempre teve no rio uma fonte de alimento e parte de seu modo de vida.
“Quando a comunidade indígena percebe que o rio está morrendo, nós choramos também. A nossa vida está ali. A vida das meninas, das crianças, está tudo ali no rio”, afirmou.
Durante a visita do g1 à aldeia, Kara’í Perú e a mãe, Keretxu Emdey, de 86 anos, que é pajé da comunidade, foram até as margens do Piraquê-Açu para fazer uma oração.
Com os braços abertos e cantos em guarani, pediram proteção para os rios, o mar e os peixes. O momento mostrou que a preocupação com a recuperação das águas também envolve uma dimensão espiritual e coletiva.
“É um canto que a gente pede lá na Casa de Reza. Com o coração mesmo que Deus vai ouvir esse canto que eu fiz para ele. É um canto de bênção para os rios, para os mares, para os peixes que Deus vai olhar para nós todos e abençoar”, explicou.
A oração é também um pedido para que o rio volte a ter vida e para que as próximas gerações possam recuperar uma relação que foi interrompida.
Uma vida inteira dedicada à pesca
Leônidas Carlos, presidente da associação de pescadores de Regência, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Em Regência, Leônidas Carlos também sente os efeitos dessa mudança. Presidente da associação que representa entre 130 e 150 pescadores, ele falou com orgulho dos filhos que criou com o dinheiro da pesca e das profissões que eles conquistaram. Entre eles, há um engenheiro de petróleo e gás.
A história da família foi construída no mar. Por isso, a perda da atividade representa muito mais do que deixar de trabalhar.
“Minha saudade é imensa. Isso foi o maior crime ambiental, acabou com minha vida. Minha vida era no mar pescando”, lamentou.
A preocupação também está na hora de vender o peixe. Sem confiança na qualidade do pescado, o pescador teme colocar em risco quem compra o alimento.
“Nós não temos segurança no pescado que a gente vende”, afirmou.
A situação também mudou a vida de José Sabino, de 62 anos. Ele criou os filhos com a pesca, mas precisou buscar outra atividade para continuar trabalhando. Atualmente, complementa a renda com o trabalho em uma fazenda de cacau.
Para ele, deixar uma profissão que sempre fez parte da vida tem consequências que vão além da renda.
“Você para de fazer o que gosta, você adoece também. Emocionalmente, psicologicamente”, relatou.
A desconfiança sobre o pescado continua. “Não é seguro, não. Não é seguro, não”, afirmou.
José Sabino, 62 anos, vivia da pesca, mas desde o desastre de Mariana mudou de atividade
Reprodução/TV Gazeta
O que mudou dentro da água
O coordenador nacional do Centro Tamar, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Joca Thomé faz a supervisão do monitoramento ambiental e os relatos de pescadores sobre animais encontrados com alterações. O órgão também solicita mudanças ou adequações quando necessário.
Segundo ele, os índices de metais pesados foram mais elevados nos primeiros anos após o desastre e diminuíram gradualmente. Ainda assim, há oscilações, principalmente em períodos de chuvas intensas.
“Os índices de contaminação de metais pesados surgiram com força no início, depois foram abaixando, tendo uns picos quando tinha chuvarada muito grande no Rio Doce, enchente, que ressuspende todo o sedimento”, explicou.
Pescadores também encaminham animais encontrados com deformidades, tumores e outras alterações para avaliação. Mas há limitações para identificar as causas desses problemas.
“Quando a gente recebe dos pescadores, no máximo consegue ver se tem metais pesados, mas não consegue saber a causa da morte”, explicou Joca.
VÍDEOS: pescadores encontram animais doentes e deformados no ES; pesquisadores associam à lama do desastre de Mariana
A análise depende de condições adequadas de conservação dos animais. Sem congelamento imediato a temperaturas muito baixas, de aproximadamente -60°C, por exemplo, fica comprometida a possibilidade de investigar determinadas alterações e suas causas.
Pesca retomada, dúvidas sobre saúde permanecem
A portaria conjunta dos ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente restabeleceu as regras para a pesca profissional em um trecho do litoral próximo à foz do Rio Doce. A atividade estava proibida havia dez anos, após decisão judicial relacionada aos impactos do rompimento da barragem.
Mas a retomada das regras não significa que todas as questões sobre a segurança do pescado estejam respondidas.
A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), responsável pelo Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática, informou que os estudos avaliam a qualidade ambiental e as condições da biodiversidade, mas não contemplam os riscos à saúde humana decorrentes do consumo de pescado.
A universidade também esclareceu que a metodologia de coleta não é direcionada especificamente a peixes de tamanho comercial.
Pescador no Rio Doce em Linhares, Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em avaliação registrada na Nota Técnica nº 48/2026, identificou quatro amostras de acará e pacu com concentração de cádmio acima do limite permitido. Os exemplares eram de água doce e, segundo a agência, não devem ser destinados ao consumo humano.
Nas amostras de pescado marinho e caranguejos de mangue avaliadas, os resultados ficaram dentro dos limites para os contaminantes analisados.
A avaliação, entretanto, também teve limitações e não contemplou todos os contaminantes possíveis.
Para pescadores e indígenas, a falta de respostas sobre a saúde e a qualidade da água mantém a insegurança sobre a relação com o rio e o mar.
Ufes identifica anomalias em peixes após desastre de Mariana no Espírito Santo
Divulgação/Ufes
O que dizem as empresas e o governo
Procuradas pelo g1, as três empresas responsáveis pelo desastre apresentaram informações sobre as ações de reparação e monitoramento ambiental.
A Samarco informou que o Novo Acordo do Rio Doce prevê acompanhamento contínuo da qualidade da água, dos sedimentos e da fauna aquática, além de estudos sobre a recuperação do ecossistema costeiro. A empresa afirmou que os dados do monitoramento são públicos e podem ser consultados no Portal Monitoramento Rio Doce.
A companhia também informou que já repassou mais de R$ 278 milhões a instituições de pesquisa de Minas Gerais e do Espírito Santo responsáveis pelo monitoramento da biodiversidade aquática. Desde 2018, os investimentos nessa iniciativa somam cerca de R$ 800 milhões. No Espírito Santo, os estudos são executados pela Ufes e outras 34 instituições parceiras.
A Vale, acionista da Samarco, reafirmou o compromisso com a reparação integral dos danos e com o cumprimento do Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo Supremo Tribunal Federal em 2024. A BHP Billiton foi procurada, mas não se manifestou.
Governo prevê investimentos na pesca e recuperação ambiental
A Secretaria de Estado de Recuperação do Rio Doce (SERD), criada para acompanhar as ações relacionadas ao desastre no Espírito Santo, informou que participa da coordenação do Plano de Reestruturação da Gestão da Pesca e Aquicultura (Propesca).
O plano prevê investimentos de R$ 2,44 bilhões na região da bacia do Rio Doce. Desse total, R$ 450 milhões serão destinados à gestão do governo capixaba.
Entre as iniciativas estaduais estão o fortalecimento da assistência técnica aos pescadores, apoio a projetos de pesca artesanal e aquicultura, fiscalização da atividade pesqueira e o programa Reflorestar Doce, que prevê ampliar a cobertura florestal em aproximadamente 6,8 mil hectares.
Coloração forte dos rejeitos já não é mais vista na superfície, mas está no fundo do rio
Initial plugin text
Sobre a possibilidade de comparar a situação atual dos peixes e da atividade pesqueira com o período anterior ao rompimento, a secretaria apontou uma limitação: não havia uma série histórica contínua de monitoramento da pesca antes de 2015.
Segundo a SERD, o último dado oficial consolidado de produção pesqueira disponível antes do desastre era de 2011. Depois do rompimento, foram ampliados os estudos, incluindo o monitoramento socioeconômico da atividade pesqueira (PMAP) e o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), coordenado pelo ICMBio e executado pela Ufes.
A secretaria informou ainda que acompanha as ações de reparação por meio de mecanismos de governança, auditorias e reuniões com as empresas responsáveis, além da participação em audiências no Tribunal Regional Federal da 6ª Região.
Da oração à rede: tradição do pescado conecta rio, mar e tanques e movimenta a economia
Números da tragédia da Samarco em Mariana
Arte/ g1
Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo
Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo

