Brasileiras denunciam médico após plásticas na Colômbia e relatam infecções e atendimento precário

Brasileiras denunciam médico após cirurgias plásticas na Colômbia
Duas brasileiras denunciaram um médico colombiano à Polícia Civil do Distrito Federal após passarem por complicações de cirurgias plásticas realizadas em uma clínica em Bucaramanga, na Colômbia.
As pacientes relataram abertura dos pontos, infecções e falta de atendimento adequado no pós-operatório, além de acusações de supostos assédios, ameaças e divulgação não autorizada de imagens.
A Polícia Civil do DF informou que investiga o caso e que as apurações estão sob sigilo.
Vitória Antunes Marqués, de 23 anos, e Chayane Chilly de Oliveira, de 28, registraram um boletim de ocorrência na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) contra o médico Guillermo Andres Gonzalez Gomez, da clínica “Remodelarte”.
A brasiliense Vitória e a pernambucana Chayane contam que contrataram pacotes de procedimentos estéticos com o médico, além de um pacote de “turismo cirúrgico”.
O “turismo cirúrgico” incluía 20 dias de hospedagem em uma casa de recuperação, com enfermagem e sessões de drenagem.
Vitória contou à polícia que, poucos dias após os procedimentos, os pontos da cirurgia abriram mais de uma vez, houve sinais de infecção, febre alta e dificuldade para respirar, sem que recebesse atendimento adequado.
Chayane também diz ter sofrido complicações no pós-operatório, incluindo abertura dos pontos por três vezes.
As duas também relataram ter vivido condições precárias e de assédio na casa de recuperação. Disseram, ainda, que suas imagens foram divulgadas sem autorização.
Clínica nega acusações
Em nota, a clínica Remodelarte negou as acusações.
“Com base nos registros e documentos disponíveis, a empresa afirma que as alegações apresentadas não correspondem aos fatos apurados internamente. Eventuais questões submetidas à apreciação das autoridades serão tratadas nos canais próprios”, informou (leia íntegra ao final da reportagem).
“A empresa atua por meio de uma equipe multidisciplinar composta por médicos, anestesiologistas, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais legalmente habilitados, tanto na Colômbia quanto no Brasil, orientada pelo acompanhamento das pacientes e pela observância das normas aplicáveis”, diz a nota.
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O que dizem as pacientes
Vitória Antunes Marqués, de 23 anos, e Chayane Chilly de Oliveira, de 28
Arquivo pessoal
Ao g1, Vitória contou que conheceu o médico Guillermo González por meio das redes sociais – o perfil foi enviado a ela por uma amiga.
A empresária conta que chegou a buscar o nome dele na internet, mas não encontrou nada suspeito.
Vitória diz ter pago R$ 68 mil à clínica, ao todo. O “pacote” incluía:
retirada de prótese mamária;
colocação de nova prótese;
mastopexia (remoção de tecido mamário para “levantar” os seios);
possibilidade de abdominoplastia e lipoescultura, incluindo lipoaspiração dos braços e costas.
As cirurgias foram realizadas de uma só vez, em 24 de junho deste ano, com duração superior a oito horas.
Vitória Antunes diz que pontos nos seios abriram após cirurgia com médico colombiano
Arquivo pessoal
Segundo Vitória, ao chegar à Colômbia, ela percebeu que a clínica onde seria operada era diferente da que constava no contrato. Ela decidiu prosseguir porque já havia pago metade do valor e o contrato não previa reembolso em caso de desistência.
A empresária acordou no dia seguinte à cirurgia tremendo e sem conseguir movimentar os braços. Ela afirma ter recebido atendimento inadequado no pós-operatório. Cinco dias depois, os pontos dos seios abriram.
Vitória afirma que ela e outras pacientes foram submetidas a novos pontos no próprio consultório — e, em outra ocasião, dentro do quarto onde estavam hospedadas — sem as condições adequadas de higiene.
Nos dias seguintes, ela passou a apresentar febre de até 39°C, calafrios, inchaço nas pernas e secreção com pus e mau cheiro na região do dreno.
Na véspera de retornar ao Brasil, Vitória afirma que voltou a ser “costurada” de forma improvisada.
Durante a noite, ela sofreu uma crise de falta de ar e taquicardia – e diz ter ouvido das enfermeiras que havia uma orientação para não chamar uma ambulância.
Mesmo debilitada, Vitória diz que embarcou para o Brasil em uma cadeira de rodas, com auxílio da companhia aérea. Assim que chegou ao país, foi levada a um hospital, onde foi internada por seis dias.
Segundo Vitória, exames identificaram uma infecção causada pela bactéria Serratia marcescens – que, de acordo com os médicos que a atenderam, costuma estar associada a ambientes hospitalares.
Vitória recebeu tratamento com antibióticos e teve alta, mas afirma que ainda está em recuperação.
“Era um enfermeiro para cuidar de cinco meninas. A gente tinha que fazer as necessidades na cama, às vezes, porque não tinha ninguém para ajudar a levantar. Era uma tontura, eu ficava com febre porque não me davam remédio, não usavam máscara. Íamos dormir com fome porque demoravam a dar comida. Era um descaso total”, lembra a empresária.
Complicações em outras pacientes
Durante o período de pós-operatório, Vitória e as outras pacientes ficaram hospedadas em uma mesma casa de recuperação. Várias tiveram complicações, segundo o relato.
“Todo mundo com febre, foi literalmente uma tortura. Eu vendo todo mundo na mesma situação, as feridas de todo mundo abrindo, foi surrreal”, diz Vitória.
Em seu depoimento à polícia, Vitória relatou ainda que, durante as visitas na casa de recuperação, o médico teria feito comentários inapropriados e passado a mão em seu corpo.
A pernambucana Chayane Chilly foi uma das brasileiras que estavam com Vitória na mesma casa de recuperação. Após fazer um procedimento nos seios, seus pontos abriram. Ela também relatou ter enfrentado dificuldades no pós-operatório.
“Meu peito abriu todo, ficou uma situação triste. Fui no hospital [no Brasil], o médico passou antibiótico e pomada para matar ou impedir uma infecção”, disse, ao g1.
Divulgação de imagens e supostas ameaças
O médico Guillermo González
Reprodução/Redes sociais
Tanto Vitória quanto Chayane relataram que tiveram suas imagens divulgadas pela clínica sem autorização.
À polícia, Chayane contou que o contrato assinado não autorizava a divulgação de imagens, e que o vídeo era permitido apenas para fins de comparação (“antes e depois”). Contudo, o médico teria divulgado o conteúdo sem autorização, o que gerou conflitos com a vítima.
Durante o período de internação, ela diz que foi expulsa da clínica após discutir com o médico, e que foi insultada e xingada.
Vitória também diz que teve vídeos seus divulgados sem autorização. Além disso, ela afirmou em seu depoimento que o médico a ameaçou com vídeos.
Segundo Vitória, ela foi instruída a pressionar o pus da ferida do dreno e foi filmada neste momento pelas enfermeiras. O médico teria então usado essas imagens para acusá-la de ter causado a própria infecção ao colocar a mão na ferida sem a devida higiene.
“Eu quero que ele pague. Não é questão de dinheiro, é questão da minha sanidade. Eu vejo todo dia ele fazendo cirurgia em meninas que correm risco de vida, assim como eu corri”, diz Vitória.
Alertas
Procurado pelo g1, o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) orienta sobre os cuidados que pacientes devem ter antes de realizar procedimentos no exterior.
Segundo a presidente do CRM, Livia Vanessa Ribeiro, o paciente pode enfrentar dificuldades para verificar se o profissional está legalmente habilitado, se possui a qualificação necessária e se o estabelecimento de saúde atende às exigências legais, sanitárias e estruturais.
“É fundamental que o procedimento seja realizado em ambiente com infraestrutura adequada, equipamentos compatíveis e equipe médica capacitada para prestar assistência imediata em caso de intercorrências”, destaca.
Ainda de acordo com Livia Vanessa, antes de se submeter a qualquer procedimento, o paciente deve adotar medidas rigorosas de segurança.
No Distrito Federal, é possível verificar, no site do CRM-DF, se o médico possui inscrição ativa e regular e se detém Registro de Qualificação de Especialista (RQE), quando aplicável à especialidade.
Segundo a presidente do órgão, atualmente, não existe um limite máximo de procedimentos que um paciente possa realizar. No entanto, no Brasil, o Código de Ética Médica proíbe a indicação de procedimentos desnecessários ou excessivos.
“O foco da conduta médica deve ser sempre o bem-estar e a segurança do paciente”, pontua a médica.
O que diz a clínica Remodelarte
“A Remodelarte é uma clínica de cirurgia plástica formada por cirurgiões especializados, com registros profissionais válidos junto aos respectivos conselhos de medicina e formação em instituições de ensino reconhecidas na área. A atuação da equipe segue os protocolos técnicos éticos exigidos pela especialidade, com compromisso permanente com a segurança e o bem-estar dos pacientes.
Todo paciente atendido pela Remodelarte recebe acompanhamento pós-operatório estruturado, incluindo suporte especializado de enfermagem e fisioterapia, com o objetivo de oferecer apoio adequado durante o período de recuperação, considerando as particularidades de cada procedimento. A clínica mantém, ainda, toda a documentação de certificação e autorização necessária para o funcionamento de sua estrutura de atendimento, disponível para verificação junto aos órgãos competentes sempre que solicitado.
Especificamente quanto à atuação do Dr. Guillermo González, esclarecemos que ele concluiu com êxito sua especialização em Cirurgia Plástica no Brasil, por instituição de ensino de grande prestígio no país. Todo e qualquer procedimento cirúrgico realizado por ele, no entanto, é feito exclusivamente Colômbia. No Brasil, o Dr. Guillermo conta com o apoio de profissionais legalmente habilitados para o suporte pós-cirúrgico de seus pacientes.
A estrutura de acomodação pós-operatória oferecida pela Remodelarte destina-se à recuperação das pacientes e não substitui o atendimento hospitalar. A hospedagem nessa estrutura é uma escolha da paciente, e não uma exigência da clínica. O apoio de enfermagem, quando disponibilizado, prestado por profissionais legalmente habilitados, nos limites de suas atribuições, e situações que demandem atendimento médico ou hospitalar são encaminhadas a estabelecimento habilitado. A equipe médica da Remodelarte atua tanto na Colômbia quanto no Brasil, incluindo o Rio de Janeiro, garantindo acompanhamento e suporte às pacientes sempre que necessário.
A evolução pós-operatória depende das particularidades clínicas de cada caso, cuja análise individual deve ser realizada com base nos respectivos registros e preservada pelo sigilo profissional.
A Remodelarte tem conhecimento das alegações encaminhadas pelo G1 e reafirma que trata cada caso com atenção individual e responsabilidade profissional. Com base nos registros e documentos disponíveis,a empresia afirma que as alegações apresentadas não correspondem aos fatos apurados internamente. Eventuais questões submetidas à apreciação das autoridades serão tratadas nos canais próprios, com respeito ao sigilo e ao direito de defesa.
A empresa atua por meio de uma equipe multidisciplinar composta por médicos, anestesiologistas, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais legalmente habilitados, tanto na Colômbia quanto no Brasil, orientada pelo acompanhamento das pacientes e pela observância das normas aplicáveis.
A Remodelarte respeita a atividade jornalística e reconhece sua importância, e reafirma sua disposição de colaborar com a imprensa e com as autoridades competentes, prestando informações e a documentação pertinentes se e quando formalmente solicitadas.”
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